O que você quer menos em 2026? Um convite ao freio coletivo
É curioso. Nesta época do ano, é comum que a gente faça (às vezes para nós mesmos) promessas como "ano que vem eu vou pegar mais leve"; "no próximo ano, quero descansar mais"; ou ainda "quero ter mais tempo para o que importa, para as pessoas que amo".
Paradoxalmente, também é comum construirmos metas, planos e pensarmos tudo o que queremos realizar no próximo período.
A construção cultural em torno da "virada" de ano tem esse caráter quase mágico. Parece que só de acontecer a transição no calendário, as coisas vão mudar no cotidiano também.
Acontece que não é bem assim. Especialmente no que diz respeito à aceleração do tempo, não tem sido.
Temos vivido, nos últimos anos, um processo progressivo de aceleração da vida.
Se começarmos a perguntar por aí, dez entre dez pessoas dirão que se sentem cansadas, exaustas, exauridas. Então, se todo mundo está assim, tem algo dessa aceleração que não é meu, seu ou de cada um(a). Existe um componente cultural, social, econômico, político que tem nos levado a correr e a esse cansaço epidêmico.
Assim, desculpe-me te dar esta notícia, mas não tem promessa de ano novo que resolva esse cansaço.
Claro que parte dele é responsabilidade de cada um —e cada pessoa tem diferentes condições de descansar (falei sobre isso na revista Gama). Mas parte desse cansaço é fruto de um modo de viver, de estar no mundo, de existir que naturaliza a velocidade e a pressa como "normal" e nos faz entrar no automático.
A vida não vai ser mais calma se não pisarmos no freio como sociedade.
Não vai ficar mais tranquilo se continuarmos nutrindo a ideia de que, todos os anos, as empresas precisam ter mais lucro, os países precisam ter PIBs maiores, as nações precisam crescer, se "desenvolver" e avançar em direção a um progresso que é sinônimo de uma relação predatória com o ambiente.
Enquanto o mundo funcionar desse jeito (e sobrepondo essa forma de crescer e desenvolver reforçando desigualdades históricas e colonialismos), a tendência é sermos cada vez mais amassados pela cultura da produtividade tóxica, do consumo excessivo e da plataformização da vida. Pois trabalho, consumo e tecnologias são alguns dos motores desse tipo de desenvolvimento.
Estamos doentes de velocidade, e alguns dos principais sintomas que se manifestam na vida em sociedade são a cultura da produtividade tóxica, o hiperconsumo, a vida dataficada pelas plataformas digitais, o isolamento das pessoas e a nossa incapacidade de escutar, de nos interessarmos pelos outros e de viver em comunidade, entre outros.
Pois ano que vem eu quero menos tempo nas redes, menos reuniões intermináveis, menos metas, menos trabalho não remunerado, menos obrigações, menos consumo, menos listas de tarefas. E quero mais olho no olho, mais escuta, mais pele, mais desejo, mais consciência, mais praia, mais cachoeira, mais natureza, mais vida, mais comunidade, mais rituais, mais arte, mais amor, mais poesia, mais descanso.
O que eu quero mais é tudo o que este mundo considera inútil. Mas, como nos lembra Krenak, a vida não é útil e isso sim é vida, é urgência, isso sim deveria ser prioritário.
Enquanto não cuidarmos disso sistemicamente, estamos assumindo que cuidado, bem-estar, descanso e desconexão são privilégios. E não são privilégios, nem brindes por merecimento, nem combustíveis para sermos mais produtivos. São direitos.
Quando faço a provocação do título deste texto, perguntando o que queremos menos no ano que vem, ela serve como exercício para pensarmos o quanto cada um de nós, de nossos lugares e perspectivas, pode estar —no nosso cotidiano— reproduzindo ideias que não transformam este mundo, enquanto repetimos por aí que gostaríamos que o ano que vem fosse mais suave.
Mesmo que você não consiga visualizar nada que quer menos no ano que vem, o exercício do menos é importante como sensibilização. E seria importante fazermos, no âmbito mais geral —das empresas, organizações e nações—, o exercício de pensar de qual (suposto) desenvolvimento, progresso, avanço ou crescimento estamos dispostos a abrir mão, se queremos, de fato, um mundo mais desacelerado para todas as pessoas.
Michelle Prazeres - Colunista de VivaBem