Álcool entre adolescentes: estratégias eficazes para prevenir o consumo

Os efeitos do consumo de álcool são piores na adolescência do que na vida adulta, mesmo em doses baixas.

Entenda o que pode evitar o consumo nessa faixa etária

Os efeitos neurobiológicos de consumir bebida alcoólica na adolescência são mais graves do que na vida adulta. O adolescente, ainda em processo de desenvolvimento do sistema nervoso central, tem duas dificuldades aumentadas em relação à bebida: o prazer e a tomada de decisão.

Durante a adolescência, há uma intensa produção de novas conexões neuronais e o crescimento de algumas regiões do cérebro, como o córtex pré-frontal e a circuitaria de reforço. A circuitaria de reforço, localizada na parte central do cérebro, produz mais dopamina nessa fase da vida em comparação com a idade adulta. Portanto, quando o indivíduo é exposto a qualquer droga, a sensação de prazer é maior.

Além disso, o córtex pré-frontal, responsável pelo comportamento e o controle dos impulsos, não está tão consolidado ainda. Como consequência, a tomada de decisões fica comprometida, levando a escolhas precipitadas. Soma-se isso à necessidade de se descobrir e pertencer a um grupo, e o adolescente fica sujeito — sem se dar conta — a influências externas que podem ser negativas.

“Quando você junta essas coisas, tem uma fórmula ruim, pois acaba dando mais chance de ele se tornar dependente. Adolescentes expostos precocemente ao álcool acabam tendo mais chance de abuso e dependência de outras drogas, o que hoje chamamos de transtorno pelo uso de substâncias”, explica Zila Sanchez, epidemiologista e coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Prevenção ao Uso de Droga (Previna) na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O tema foi um dos tópicos do debate feito pela ACT Promoção da Saúde em outubro na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP).

Como conversar com o adolescente sobre álcool?

A especialista destaca que o que realmente funciona como prevenção ao consumo de álcool na adolescência é o controle do acesso, seja através da família ou da própria legislação, limitando os pontos de venda.

Já na conversa com o adolescente, é importante ser claro, honesto e focar nos efeitos imediatos do álcool. Dizer que o “álcool causa câncer” é menos eficaz do que dizer que o álcool pode fazer com que ele passe mal na frente dos amigos, com que ele seja filmado vomitando e vire motivo de piada na internet, com que ele acabe tendo relações sexuais com alguém que não queria ter, e por aí vai.

“São esses efeitos imediatos negativos que, do ponto de vista pedagógico, acabam tendo algum resultado. Não é o terrorismo, não é a informação de longo prazo, mas o efeito imediato da intoxicação alcoólica, passando pela questão da vulnerabilidade midiática, inclusive, porque agora tudo é filmado e colocado nas redes”, acrescenta Zila.

Além disso, é fundamental oferecer ao adolescente instrumentos que permitam que ele escolha grupos adequados de amigos, aprendendo a tomar decisões de forma consciente e até a recusar bebida sem criar inimizades.

Redução de danos na adolescência tem efeito reverso

Outro ponto de atenção é que o discurso de redução de danos, como intercalar a bebida com copos de água, não misturar vários tipos de bebida e sempre comer antes de beber, não funciona com adolescentes.

Em 2013, o Brasil realizou o Programa #Tamojunto, uma adaptação do experimento europeu Unplugged, em que aplicaram um modelo de redução de danos sobre o uso de álcool e outras drogas entre adolescentes de 12 a 14 anos. O resultado foi o aumento de cerca de 30% na iniciação ao álcool entre os participantes.

Mais tarde, o governo voltou ao programa original, mantendo a lógica de não uso e adiamento da experimentação da bebida. Dessa vez, o resultado foi de redução de 22% na iniciação ao álcool.

“Durante a adolescência, não vamos falar de redução de danos, porque eles interpretam a redução de danos como validação do consumo. Para o adolescente, é uma mensagem de que: ‘olha, se eu fizer assim, não é tão perigoso, então tudo bem’. E não está tudo bem”, alerta Zila.

Beatriz Zolin é jornalista e atua na Redação do Portal Drauzio Varella. Colabora principalmente com assuntos relacionados à saúde e sociedade, sexualidade e psicologia.

Extraído do Portal Drausio