Insônia feminina e uso de drogas Z: quando o remédio vira risco

Dupla jornada, insônia e dependência faz com que as mulheres sejam as mais afetadas pelos efeitos do uso indiscriminado de drogas Z

Três em cada dez brasileiros sofrem com pelo menos um dos sintomas de insônia. No caso das mulheres, 36,2% são afetadas pelo problema, em comparação a 26,2% dos homens. Os dados são do Vigitel 2025.

As mulheres, em grande parte responsáveis por jornadas duplas de trabalho e mais suscetíveis às comorbidades da insônia, como transtornos de ansiedade e humor, são as que mais enfrentam dificuldades para dormir. Como consequência, também são as que mais recorrem às chamadas “drogas Z” — muitas vezes sem acompanhamento médico.

As drogas Z são medicações utilizadas para induzir rapidamente o sono, como no caso do Zolpidem. Elas começaram a ser altamente procuradas após a pandemia, quando houve um aumento de 113% na busca por tratamento para insônia, segundo estudo.

“Só que essa medicação tem um tempo curto de ação. A gente chama de meia-vida: meia-vida de duas horas. O que acontece? Eu tomo e acordo depois de um certo tempo. Mas se eu preciso dormir, está de madrugada e eu não consigo voltar a pegar no sono… Eu vou lá e tomo outro remédio. Isso gera um ciclo vicioso. Aquela dose que fazia efeito lá atrás, hoje não faz mais”, explica Andrea Bacelar, neurologista e membro do Departamento Científico de Sono da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). “Aí realmente virou uma panaceia muito grande, uma epidemia. Já há algum tempo, nós, neurologistas e especialistas do sono, estamos recebendo semanalmente pessoas dependentes do remédio”, afirma.

A dificuldade de parar

Falta de produtividade, risco de acidentes, ritmo inadequado de descanso e problemas no trabalho, nas relações sociais, no humor, no autocuidado e no lazer são os principais efeitos do consumo abusivo das drogas Z. Ao tentar parar abruptamente, porém, a situação pode se agravar para uma crise convulsiva.

“Muitas vezes, é neste momento que a luz amarela se acende e a família toda entende que existe um problema sério. Aí sim, o médico especialista entra no circuito para mostrar que a convulsão não é porque essa pessoa tenha epilepsia, foi por abstinência da substância”, detalha a especialista.

Novo consenso pode ajudar no desmame

Em agosto de 2024, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), decretou um controle mais rígido sobre a prescrição e venda das drogas Z, dado o uso irregular e abusivo desta classe, especialmente do Zolpidem. No final do ano passado, ABN, com apoio da farmacêutica Apsen, elaborou um documento que responde às principais dúvidas sobre quadros de abuso, dependência e eventos adversos relacionados a esses medicamentos. Até então, não existia no Brasil nem no mundo um protocolo robusto com indicações de quando indicar e como fazer o desmame dessas medicações.

“A gente tem várias linhas de retirada [do medicamento]. Vai depender da individualização do problema daquela paciente. A dose que ela está tomando, a comorbidade que ela tem e se ela tem apoio familiar. Em casos mais graves, a gente vai precisar internar essa pessoa, mas, na maioria das vezes, ambulatorialmente, com a terapia, a família, a aceitação e a vontade da paciente de sair disso, a gente tem muito êxito”, comenta Bacelar, que também foi uma das coordenadoras do consenso.

De acordo com o documento, você deve procurar ajuda médica o quanto antes se:

  • estiver tomando mais do medicamento ou por mais tempo do que o pretendido;
  • tem desejo persistente ou tentativas malsucedidas de reduzir o uso;
  • gasta muito tempo em conseguir, usar ou se recuperar dos efeitos da substância;
  • tem desejo intenso ou compulsão para usar a substância;
  • sente incapacidade de cumprir obrigações importantes por causa do medicamento;
  • usa continuamente apesar de problemas causados ou exacerbados pelo uso;
  • reduz suas atividades sociais, ocupacionais ou recreativas devido ao uso;
  • usa em situações fisicamente perigosas;
  • precisa de doses maiores para obter o mesmo efeito;
  • e/ou sente sintomas de abstinência quando o uso é interrompido ou reduzido.

Beatriz Zolin é jornalista e atua na Redação do Portal Drauzio Varella. Colabora principalmente com assuntos relacionados à saúde e sociedade, sexualidade e psicologia.

Extraído do Portal Drausio