Má alimentação na infância pode prejudicar a visão
Deficiência de vitamina A, por exemplo, pode levar à dificuldade para enxergar em ambientes escuros. Saiba quais nutrientes são importantes para a visão
Manter uma alimentação balanceada é um dos pilares essenciais para uma boa saúde, mas muita gente desconhece o papel que os alimentos desempenham na saúde ocular desde cedo. Cuidar da visão também começa pelo prato.
Segundo Renata Santos, médica oftalmologista, a retina, o cristalino e até a qualidade da lágrima dependem de nutrientes específicos para funcionar bem.
“Por exemplo, a vitamina A é essencial para a visão noturna. A falta dela pode causar dificuldade para enxergar no escuro e até ressecamento ocular. Já as vitaminas C e E são antioxidantes poderosos. Elas ajudam a proteger os olhos contra o envelhecimento precoce e reduzem o risco de doenças como catarata e degeneração macular”, explica.
Outro nutriente importante é o ômega-3, que melhora a qualidade da lágrima e ajuda muito em casos de olho seco. “E temos ainda a luteína e a zeaxantina, que funcionam como um filtro natural contra a luz azul, protegendo a mácula”, completa a especialista.
Como funciona essa relação
A infância é um período crítico para o desenvolvimento visual, em que os olhos e o cérebro ainda estão em formação, e a nutrição tem papel fundamental nesse processo.
“Quando há falta de nutrientes, especialmente vitamina A, ferro, zinco e proteínas, o desenvolvimento da retina e das vias visuais pode ser comprometido. A vitamina A participa da formação da rodopsina, que é a proteína responsável pela visão em ambientes com pouca luz. Sem ela, a criança pode apresentar cegueira noturna e, nos casos mais graves, alterações estruturais na córnea, como na xeroftalmia”, afirma a médica.
Além disso, ela explica que nutrientes como ferro e ômega-3 são importantes para a mielinização do nervo óptico e para a maturação das conexões entre o olho e o cérebro. “Se essa etapa não acontece de forma adequada, pode haver prejuízo na qualidade da imagem transmitida ao córtex visual.”
A desnutrição crônica também pode afetar o crescimento ocular como um todo, interferindo na acuidade visual e no desenvolvimento neurossensorial.
“Ou seja, não se trata apenas de ‘enxergar bem agora’, mas de permitir que o sistema visual se desenvolva plenamente. A nutrição adequada na infância é um investimento direto na visão ao longo da vida”, destaca.
Doenças oculares associadas à má alimentação
Uma alimentação pouco saudável pode contribuir para o surgimento de diversas doenças oculares, principalmente quando há deficiência de vitaminas e excesso de açúcar e gorduras. A oftalmologista lista as principais condições associadas à má alimentação:
- Deficiência de vitamina A, que pode causar cegueira noturna, xeroftalmia e, em casos graves, ulceração de córnea;
- Retinopatia diabética, relacionada ao consumo excessivo de açúcar e ao desenvolvimento do diabetes;
- Maior risco de catarata e degeneração macular, devido à baixa ingestão de antioxidantes;
- Agravamento da síndrome do olho seco, quando há deficiência de ômega-3.
“Em casos mais graves, a deficiência de nutrientes pode levar à cegueira. A falta severa de vitamina A ainda é uma causa importante de cegueira evitável em algumas regiões do mundo”, conta.
Quais alimentos priorizar?
Os principais aliados da saúde dos olhos, segundo a médica, são alimentos ricos em vitaminas, antioxidantes e gorduras boas. Veja quais nutrientes são importantes e em quais alimentos encontrá-los:
- Vitamina A: cenoura, abóbora, batata-doce, espinafre e gema de ovo (ajudam na visão noturna e na saúde da retina);
- Luteína e zeaxantina: couve, brócolis e folhas verde-escuras (protegem a mácula contra o envelhecimento e a luz azul);
- Vitamina C: frutas como laranja, acerola, morango (atuam como antioxidantes e ajudam na prevenção de catarata);
- Vitamina E: castanhas e amêndoas (protegem as células oculares contra radicais livres);
- Ômega-3: salmão, sardinha, linhaça e nozes (melhoram a qualidade da lágrima e ajudam no olho seco).
“Uma alimentação colorida, rica em vegetais, frutas e peixes é uma grande aliada da saúde ocular ao longo da vida”, diz Santos.
Excesso de ultraprocessados faz mal para os olhos
Ao mesmo tempo em que uma dieta balanceada e nutritiva é aliada da saúde ocular, os ultraprocessados são prejudiciais para a visão. Isso ocorre porque em geral esses são produtos ricos em açúcar, gorduras trans, sódio e aditivos químicos, e pobres em vitaminas e nutrientes.
De acordo com a especialista, o principal mecanismo de ação desses produtos é metabólico e inflamatório, já que o excesso de açúcar favorece o desenvolvimento do diabetes, que pode levar à retinopatia diabética, enquanto o excesso de gorduras e alimentos inflamatórios aumenta o estresse oxidativo, acelerando o envelhecimento ocular.
Além disso, dietas pobres em nutrientes reduzem a oferta de vitamina A, antioxidantes e ômega-3, fundamentais para a retina e a superfície ocular. “Ou seja, os ultraprocessados não prejudicam os olhos de forma direta e imediata, mas, ao longo do tempo, criam um ambiente inflamatório e metabólico que aumenta o risco de doenças oculares.”
Como observar se a criança está com problemas de visão?
Alguns sinais de alerta podem indicar que algo não está bem com a visão da criança:
- Desvio dos olhos (um olho “torto” ou que foge);
- Aproximar muito o rosto da TV ou do celular;
- Dificuldade para enxergar na escola ou queda no rendimento;
- Queixa frequente de dor de cabeça;
- Apertar ou esfregar muito os olhos;
- Sensibilidade excessiva à luz;
- Em bebês: não acompanhar objetos ou não manter contato visual.
“É importante lembrar que muitas crianças não sabem explicar que estão enxergando mal. Por isso, observar o comportamento e manter consultas oftalmológicas regulares é fundamental para diagnóstico precoce e tratamento adequado”, orienta Santos.
O ideal é que a criança passe pela primeira avaliação oftalmológica ainda no primeiro ano de vida, mesmo sem sintomas. Depois disso, recomenda-se uma nova consulta entre os 3 e 4 anos de idade (fase importante para detectar grau e ambliopia); avaliação completa antes da alfabetização (5 a 6 anos); e, após essa fase, consultas anuais ou conforme orientação médica.
“Se houver sinais como desvio ocular, dificuldade para enxergar ou histórico familiar de problemas visuais, a avaliação deve ser antecipada. A prevenção é sempre o melhor caminho para garantir um bom desenvolvimento visual”, conclui a oftalmologista.