Medo de engolir: entenda o que é e como tratar a fagofobia

Fagofobia é caracterizada pelo medo intenso de engolir. Condição rara causa sintomas físicos e psíquicos

Medo de altura, de locais fechados, de avião… essas são fobias conhecidas e relativamente comuns. Mas você já conheceu alguém que sente medo de engolir? Parece estranho, mas existe e tem nome: fagofobia. A condição é caracterizada pelo medo intenso de engolir — alimentos, líquidos ou remédios — por achar que vai engasgar ou sufocar.

O quadro surge mesmo quando os exames do aparelho digestivo e neurológico são normais, ou seja, não há um “problema físico” que explique a dificuldade.

“A fagofobia é classicamente compreendida como uma fobia específica, conforme os sistemas classificatórios (DSM-5-TR e CID-11), geralmente enquadrada no subtipo ‘outros’ dentro das fobias específicas. Episódios de engasgo podem atuar como evento condicionante, mas não são obrigatórios”, afirma Luciana Siqueira, psiquiatra do Programa Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq/HCFMUSP).

A condição é considerada rara, mas provavelmente subdiagnosticada.

“Muitos pacientes passam meses ou anos evitando alimentos sólidos antes de receber o diagnóstico correto, principalmente quando o quadro é confundido com problemas gastrointestinais ou transtornos alimentares”, explica Antonio Chaves Filho, psicólogo do Hospital Santa Mônica, em Itapecerica da Serra (SP).

Sintomas da fagofobia

A fagofobia pode causar sintomas psíquicos, físicos e comportamentais, como:

  • medo intenso de engasgar ao comer ou beber;
  • ansiedade antes das refeições, só de pensar em comer;
  • pensamentos do tipo “vou sufocar” ou “não vou conseguir engolir”;
  • coração acelerado, suor frio, tremores na hora de engolir;
  • sensação de “nó na garganta” ou garganta apertada, mesmo com exames normais;
  • mastigar demais, cortar a comida em pedaços mínimos, comer muito devagar;
  • precisar de goles de água para conseguir engolir;
  • preferir alimentos líquidos ou pastosos, considerados mais “seguros”;
  • evitar certos alimentos, refeições completas ou comer em público.

Consequências da fagofobia na saúde 

Quando comer vira motivo de medo, há impacto na saúde, na rotina e na qualidade de vida. Em relação à parte nutricional, segundo o psicólogo, o indivíduo tende a adotar uma dieta cada vez mais restrita, com poucos alimentos aceitos, ou ficar dependente de sopas, vitaminas e outras preparações macias. Com isso, pode ocorrer perda de peso progressiva, deficiência de vitaminas e nutrientes e, em casos graves, desnutrição.

Além disso, há consequências para a saúde emocional e a vida social, com atitudes como evitar restaurantes, festas e refeições em família; isolar-se por vergonha ou medo de engasgar na frente dos outros; aumento de ansiedade e estresse ligados à alimentação; e prejuízos no trabalho ou estudos, se a pessoa não consegue comer fora de casa.

“Gera muito sofrimento pois a pessoa se sente incapaz e envergonhada”, diz Siqueira.

Além disso, a evitação alimenta o problema. “Quanto mais a pessoa foge de comer, mais o medo aumenta. Isso cria um círculo vicioso difícil de quebrar sem ajuda”, pontua Filho.

O que causa a fagofobia?

De acordo com o psicólogo, na maioria dos casos, a fagofobia aparece depois de uma experiência marcante com engasgo ou sensação de sufocamento. A partir daí, o cérebro passa a ligar o ato de engolir a perigo.

Outros fatores que podem estar associados ao surgimento do problema são crises de vômito ou refluxo muito desconfortáveis, histórico de ansiedade, pânico ou outros fobias — o que aumenta a sensibilidade ao medo —, ver outra pessoa engasgar, assistir a vídeos ou notícias de sufocamento, ambiente familiar muito ansioso em torno da alimentação, ou forte histórico familiar de transtornos de ansiedade.

“Nem sempre há uma causa única, mas esses elementos costumam aparecer em combinação nos relatos dos pacientes”, afirma.

Fagofobia é diferente de transtorno alimentar

A fafogobia não é um transtorno alimentar, e sim um tipo de fobia específica. Contudo, ela pode ser confundida com transtornos alimentares ou, em alguns casos, coexistir com eles.

“Um quadro que costuma gerar dúvidas é o transtorno alimentar restritivo/evitativo (TARE). Nesse transtorno, a pessoa come muito pouco ou evita vários alimentos, mas não porque quer emagrecer ou mudar o corpo, como na anorexia”, esclarece o psicólogo.

A principal diferença, segundo ele, é que na fagofobia, o medo central é de engasgar ou sufocar — o foco é o ato de engolir. Já no TARE, a pessoa pode evitar comer por diversos motivos, como forte aversão a cheiros, sabores ou texturas; pouco interesse em comer; ou medo de passar mal (como engasgar, vomitar, sentir dor abdominal, ter reação alérgica). Em alguns casos, a fagofobia pode ser o gatilho do TARE, principalmente quando leva a restrição alimentar prolongada.

“Não há distorção de imagem corporal. A psicopatologia central é a ansiedade condicionada ao ato de deglutir, e não o comportamento alimentar”, esclarece Siqueira.

Como funciona o diagnóstico e o tratamento da fagofobia

O diagnóstico é clínico e avalia se há ou não problemas de deglutição, além de investigar o medo de engolir, histórico de engasgos ou outros episódios traumáticos. Também é importante observar o tempo dos sintomas, impactos na qualidade de vida, peso e alimentação. “Na maioria dos casos de fagofobia, os exames físicos são normais, apesar da sensação intensa de dificuldade para engolir”, afirma Filho.

A avaliação, idealmente, deve ser feita por diferentes profissionais de saúde:

  • psicólogo clínico: para avaliar o quadro emocional e conduzir a psicoterapia;
  • psiquiatra: para fazer o diagnóstico diferencial, avaliação de outros transtornos e indicação de medicação, se necessário;
  • otorrinolaringologista e/ou gastroenterologista: para descartar problemas físicos na garganta ou no aparelho digestivo;
  • fonoaudiólogo: para avaliar e treinar a deglutição quando houver necessidade;
  • nutricionista: para monitorar o peso, corrigir carências nutricionais e orientar a alimentação.

“Esse olhar conjunto ajuda a não confundir fagofobia com outras doenças e a tratar tanto o medo quanto suas consequências no organismo”, esclarece ele.

O tratamento costuma unir psicoterapia — através da terapia cognitivo-comportamental (TCC) —, manejo da ansiedade e cuidados com a alimentação. Em alguns casos, pode ser recomendado o uso de medicações como antidepressivos e ansiolíticos, especialmente se houver outros transtornos associados.

O paciente também precisa ser exposto, de forma gradual, ao ato de engolir. “O paciente e o terapeuta montam uma sequência: começar com alimentos mais fáceis (líquidos, pastosos) e, aos poucos, avançar para sólidos mais desafiadores”, explica. A ideia é mostrar, na prática, que é possível engolir com segurança.

“Com tratamento adequado e acompanhamento em equipe, muitas pessoas conseguem voltar a se alimentar com mais segurança e retomar a vida social em torno da comida”, conclui o especialista.

Maiara Ribeiro é jornalista e integra a redação do Portal Drauzio Varella desde 2018. Tem interesse principalmente em assuntos relacionados à primeira infância, saúde mental, longevidade e bem-estar.

Extraído do portal DRAUZIO